Outro dia resolvi descer a Serra do Mar, até aí nada de anormal se não fosse a forma escolhida: a pé pelas curvas da estrada velha, isso mesmo, a pé pela boa, velha e resistente “Caminho do Mar”.
No início parecia apenas uma aventura um tanto quanto adolescente, mas durante o caminho toda a expectativa foi se transformando e além da exuberante beleza da serra os pensamentos me levaram para o tema de hoje que eu venho a explicar abaixo.
Depois de rodar pela Anchieta, segue-se as placas para a Estrada Velha. Nesse momento já se percebe que algo mudou, os caminhões somem, a alta velocidade fica no passado, a presença da represa e a paisagem tranqüilizam o pé direito.
A pista é simples e as pontes estreitas mas a paisagem é inebriante, ciclistas e pedestres são a grande maioria nesse trecho, nem parece que pertinho dali carretas de soja disputam um lugar no asfalto, sendo que passados apenas 10 kilometros do distante trevo da Anchieta, encontra-se uma cancela, desse ponto em diante segue-se a pé.
E após um pequeno e bucólico trecho de planalto inicia-se a tão esperada “descida de serra”, a proximidade com a natureza é algo indescritível, respira-se história, as construções em pedra a beira do caminho são de perder a fala, as vistas são magníficas, observa-se alguns trechos do caminho original em que os tropeiros que subiam a serra, tudo perfeito.
E no meio desse caminho observando a Imigrantes bem longe foi inevitável conflitar o novo com o velho.
Ora hoje tem criança que acha que a praia é um bairro paulistano, afinal entramos no carro rodamos alguns minutos, passamos pelos túneis e pronto. Até chegar na casa do vovô que mora do outro lado da cidade é mais demorado. Sequer lembramos que menos de um século atrás as pessoas subiam por uma trilha na mata, com o desenvolvimento perdeu-se a história.
Tal como o casal de namorados que se correspondia por cartas e a cada envelope na caixa dos correios sentia o coração disparar, sendo que com as letras vinham aromas, lembranças, esperanças…
A facilidade de nos comunicarmos e encontrar quem está distante não pode permitir que os momentos juntos não sejam valorizados como eram antigamente, não podemos perder o sentido, e a alegria, que significa um encontro ou um reencontro.
Claro que os avanços tecnológicos são ótimos para a vida, mas quando isso começa a roubar e esquecer a história, quando o Google extermina museus e bibliotecas pela terra, quando o Ctrl C + Ctrl V rouba o conhecimento do aluno, quando o casal que mora próximo passa o dia no MSN e não se vêem, me pergunto se isso tudo vale a pena.
E embora na subida da volta, minhas pernas implorassem por um automóvel e pelos modernos túneis, garanto, não mudei minha idéia!
Grande Abraço!




